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Cem Anos de Vinhos do Dão

A vida está-nos sempre a surpreender. Estava eu aqui há meses “posto em sossego” nas margens do Mondego quando recebi uma chamada do Dr. Luís Canavarro, médico psiquiatra, escritor (“Infância em Terra Pequena”, da Minerva Coimbra) e sei lá eu que mais, do interior profundo da Beira, o “coração de Portugal”, a perguntar-me o que eu achava de homenagear o vinho do Dão entrando como convidado para uma confraria de degustadores do vinho do Dão, a Ordem Soberana dos Cavaleiros de S. Urbano e S. Vicente. Pois eu achava bem não só pela oportunidade de provar um bom Dão (um? vários!) como pela honra do inesperado convite. Depois de provadas as várias colheitas de Dão num memorável jantar em Viseu servido pelo Chefe Hélio Loureiro, só posso dizer que o Dão ficou não só provado e aprovado, como aprovado, como se diz na gíria académica, com louvor e distinção. Agradeço muito a gentileza dele e dos seus confrades, que confirmaram um velho provérbio português: “Quem tem bom vinho tem bom amigo.”

Eu sei pouco de vinhos (ao pé de verdadeiros sábios que tenho conhecido, sou um ignorante no assunto). Para escrever um dia no “Público” sobre as tabernas de Coimbra tive de me documentar bem. Não sei por isso que qualidades tive para justificar a chamada para a confraria. Contudo, as qualidades dos bons vinhos que me foram servidos são indiscutíveis. O físico norte-americano do século XVIII Benjamin Franklin afirmou: “O vinho é uma prova constante de que Deus nos ama e deseja ver-nos felizes”. Lá terá as suas razões, mas eu não sei como é que ele conseguiu dizer isso sem ter provado os vinhos do Dão! Não foi, de resto, o único cientista a elogiar o vinho. Na mesma linha, e já no século XX, o médico inglês Alexander Fleming afirmou: “A penicilina cura os homens, mas é o vinho que os torna felizes”.

O vinho tem, desde sempre, inspirado os grandes criadores. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche fez uma defesa (não sei se apenas metafórica) da embriaguez ao declarar: “A fim de haver arte, para que existam um fazer e um olhar estético, é indispensável uma condição biológica: a embriaguez; primeiro que tudo a embriaguez deve intensificar a excitabilidade de toda a máquina humana”. Muitos artistas louvaram o vinho, em prosa e poesia, em tela e em pedra. Não será pois de estranhar que um dos vinhos mais conhecidos do Dão tenha associado o nome de um dos melhores artistas da região: Vasco Fernandes, Grão Vasco, que dá o nome ao Museu ao lado da Sé de Viseu.
É sabido que o vinho, em doses moderadas, faz bem. O bioquímico francês Louis Pasteur não teve dúvidas, no século XIX, em dizer que: “O vinho é a mais pura e higiénica das bebidas”. Os químicos dizem-nos que o vinho tem polifenóis e taninos, substâncias muito úteis para o nosso bem-estar. Hoje, no século XXI os estudos abundam em defesa dos bons efeitos dos bons vinhos. Está hoje bem identificado o chamado “paradoxo francês”, que consiste nos resultados de um estudo comparativo realizado no início dos 90 sobre a incidência de ataques cardíacos entre os americanos e os franceses. Os franceses são mais saudáveis precisamente porque a sua dieta inclui o vinho tinto. O álcool eleva os níveis de HDL ou “bom colesterol”, no sangue. Um estudo realizado em 1995 por cientistas dinamarqueses mostrou que as taxas de mortalidade diminuem mais entre pessoas que bebem vinho do que naquelas que tomam cerveja ou bebidas destiladas.
Os vinhos do Dão, em geral de sabor aveludado devido à selecção das castas, ao solo granítico e ao clima interior, são cultivados numa região demarcada que faz exactamente cem anos no corrente ano (foi criada em 1908). A região demarcada tem sabido modernizar-se, como provam as novas colheitas que todos os anos vários agricultores e cooperativas nos fornecem. A Dão Sul, por exemplo, é uma empresa que conseguiu até internacionalizar a sua produção, criando vinhos no Brasil. Brindemos para comemorar o centenário!

 

Prof. Dr. Carlos Fiolhais – 10/01/2008